DA FOLHA DE SAO PAULO

Pesquisa mostra que diversidade de espécies supera isolamento pelos rios da região, que não são tão intransponíveis

Estudo apóia tese defendida pelo biólogo sambista Paulo Vanzolini, de que a riqueza zoológica surgiu em núcleos de vegetação diferenciados

EDUARDO GERAQUE
DA REPORTAGEM LOCAL

Uma hipótese controvertida para explicar por que a Amazônia tem tanta biodiversidade acaba de ganhar reforço. A teoria dos refúgios - noção de que a proliferação do número de espécies de animais da floresta surgiu da divisão da região entre áreas com diferentes tipos de vegetação- é defendida pelo biólogo sambista Paulo Vanzolini. Após sofrer inúmeros ataques, a idéia está sacudindo a poeira e dando a volta por cima.
Tudo por causa de um estudo feito com saúvas. Segundo os autores, que publicaram o trabalho na edição de ontem da revista "PLoS One", a grande explosão de diversidade desses insetos ocorreu à revelia da barreira imposta quando os rios amazônicos se formaram. A superdiversificação é recente, e teve mais vigor por volta de 2 milhões de anos atrás.
"É a primeira vez que a teoria dos refúgios é testada para um grupo de invertebrados", diz Maurício Bacci Jr, bioquímico da Unesp (Universidade Estadual Paulista), do campus de Rio Claro. "Na verdade, estamos propondo uma espécie de reconceituação da teoria dos refúgios", diz o pesquisador. Ele assina o estudo com dois brasileiros e dois americanos.
Os cientistas reconstruíram a história de três espécies de saúva com dados genéticos. Com uma análise estatística das árvores genealógicas dos insetos, foi possível saber qual teoria explica melhor a explosão da biodiversidade das formigas na Amazônia. O método identifica há quanto tempo a troca de genes entre populações de locais diferentes foi interrompida. Isso pode fazer uma espécie se dividir em duas.
"Esse estudo, logo de início, mostrou que as formigas proliferaram pela floresta independentemente da barreira formada pelos rios amazônicos." Isso não foi visto nas viagens do grupo, mas há relatos de que ninhos de formiga navegam pelos rios em troncos, podendo atravessar quilômetros de extensão. "Voando, realmente, as formigas não conseguem", diz Bacci Jr. "Mas isso [a travessia] ocorre até nos oceanos."

A floresta virou mar
Os mesmos testes, entretanto, foram mais adiante. Eles mostraram que, além da teoria dos refúgios, uma outra tese proposta pelos cientistas para explicar a diversidade da floresta também teve um papel relevante no caso das saúvas.
"A invasão marinha [por causa do aumento do nível dos oceanos] é que teria se iniciado o processo de isolamento. Depois surgiram os refúgios", diz o bioquímico. Esse processo de entrada de água salgada sobre a planície amazônica ocorreu há cerca de 15 milhões de anos -antes, portanto, da formação do rio Amazonas, há 12 milhões de anos, como diz a pesquisa. Com a água entrando, áreas situadas em maior altitude teriam se transformado em ilhas de um "mar" amazônico.
Segundo o novo estudo, as espécies de formiga se diversificaram depois disso, entre 14 milhões de anos atrás e 8 milhões de anos atrás.
A partir desse cenário é que a região Amazônica passou a ser, mais recentemente, um verdadeiro centro de origem de novas espécies de formigas.

Migração
"Mas elas não surgiram diretamente na Amazônia", diz Bacci Jr. Segundo o pesquisador, há evidências de que as formigas deixaram a mata atlântica -antes de ser desmatada ela era mais extensa e exuberante- e, só depois, migraram do litoral para o norte do país.
As saúvas, hoje, estão presente em praticamente todos os países da América do Sul. "Elas só não chegaram ao Chile. As formigas conseguem atravessar os rios, mas subir os Andes é um pouco mais difícil."
Com menos barreiras no resto das Américas, as saúvas já conseguiram migrar até o sul dos Estados Unidos.